Enfim, o fim.


Nunca fui boa em despedidas. Claro, não sou boa em quase nada, mas, em despedidas... Sou pior nela, do que em qualquer outra coisa. Sempre reajo da forma errada; costumo fazer parecer que estou irritada com isso tudo, ansiosa pelo fim. Quando não é verdade. Mas não acho que a culpa seja minha, ou de qualquer um.
       Oh, droga, vejo que estou fazendo tudo errado. De novo.
        Não posso me estender nisso aqui, até porque não faz sentido.
        Sejamos diretos, objetivos. Certo, provavelmente, você agradece.
        Sim, serei rápica, agora; pode ler mais algumas linhas? Continuemos, então.
        Esse blog, enfim, depois de quase dois anos, acabou.
        Não, não pararei de escrever - só pararei de escrever nele.
        Não sou mais o que ele me mostra ser. Ele não é mais como eu. Ou seja, rompemos nosso relacionamento. Nosso namoro acabou. Entendeu?
        De quem estou me despedindo, não sei. Provavelmente, ninguém está lendo isso aqui. Que seja. Tanto faz. Mas, só caso - e muito por acaso -, alguém esteja lendo, agora fiz um novo blog. Por quê tive de fazer um novo blog? Não me questione, pelo amor de Deus! Faço o que quiser, afinal. Pois bem, já me despedi. Não excluirei o blog - até porque todos meus textos estão nele -, mas também não o atualizarei. E pronto. Esse é o fim.
Novo blog:  Manhãs de Ressaca

Piada dos dias


"E há tempos
O encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura
Abrigo e proteção..."
- Legião Urbana

Engraçado. O mundo, em si, parece uma piada. Por quê, e quando, foi que tudo passou a ter graça? Não sei. Deve ter sido a partir do momento que a serpente, no jardim do Éden, "perdeu as pernas" por tentar ('tentar' do verbo não fazer nada, mas estar lá) uma mulher a fazer o mal. Sério. Isso nunca fez sentido. A mulher não tinha vontade própria, nem o homem? Isso é histórinha. E muita gente acredita; como se fosse uma verdade exata. Pode ser uma metáfora, não? Pode ser uma mentira... Quem sabe, até, uma verdade; mas... Essas estórias (ou histórias, que seja), me fazem rir. Não consigo mais crer nelas.
        Tem um momento que você, enfim, descobre que a vida é um livro engraçado. Você é só mais um palhaço num circo brega e ultrapassado.
        E eu nunca nem gostei de palhaços.
        Eles vivem fazendo graça, roubando sorrisos. Eles fingem cair no chão, e puxam um trenzinho animado de risos. Como se ver alguém fingir que está caindo, fosse realmente lá isso tudo.
        Mas, é, os humanos são assim.
        Eles riem de coisas que nunca foram engraçadas, e esquecem-se do mais importante - do que, com certeza, deveria fazer rir.
        A vida é irônica.
        E esse é um fato engraçado.
        Nós temos tanto medo de morrer... como se morrer fosse ruim. Mas, nem notamos que não nascemos para viver tanto quanto vivemos. Pessoas velhas desaprendem o que aprenderam, desfazem o que já fizeram, perdem o que demoraram anos para conseguir. Até mesmo diminuem de tamanho, se você nunca notou. É como se fosse um castigo... É como se fosse uma piada.
        Vê onde nosso medo da morte - do fim -, nos levou?
        Porque lutar pela vida, para nós, é o essencial. Esquecemos, desse modo, do natural - do que nos é nato.
        E isso é engraçado.
        De verdade. Eu riu. Riu do desespero alheio, porque é somente isso que posso fazer.
        Se me acha louca, tudo bem. Já passei da fase de me importar com o que qualquer um vem me dizer. Já passei da fase de tentar entender o que se passa - demorei anos, mas, enfim, descobri que algo é mais importante que a verdade... E isso estava bem na minha frente.
        Não tente entender tudo.
        Não tenha medo do que vem depois.
        Esse medo - ele nos faz de tolos.
        Somos idiotas.
        Nos importamos demais.
        E, afinal, o que nos sobra é o que não vemos: o que vem após o final. Após as cortinas serem fechadas. Após o último trem da noite passar. Após isso, vem o que vem depois - o que nos importa de verdade. Adianta tentarmos resolver um misterio que não pode ser resolvido?
        Homens e mulheres... Sempre tentando ser os heróis da história. Cá entre nós, nunca chegam nem perto; e, os que chegam, são lançados na fogueira, presos numa cruz ou se suicidam.
        Temos costume de matar todos nossos heróis.
        Porque preferimos rir dos palhaço à ter de ver a verdade e aceitá-la, rir com ela.
        Mas isso não passa de regras sociais, "sociedade".
        Porque nós estamos brincando de humanidade, entende?
        Então, temos que fingir bem.
        "Ei, faça seu papel direito".
        "Éh, alguém ali está errando as falas".
        "Ei, seu figurino está errado".
        Falsidade. Até quando os humanso tentam ser verdadeiros, só arrumam mais falsidade.
        Por isso eu riu; riu dos velhinhos, que não conseguem nem mais andar, e me pergunto como eles ainda suportam viver. Riu do idiota que entrou em estado de choque, após descobrir que metade do seu salário foi descontado para pagar as dividas do banco. Riu quando uma criança morre nos hospitais, depois de passar 4 horas esperando atendimento. Riu do sistema. Riu das vitimas. Porque tudo isso é engraçado. E quem entende o que se passa, sabe que é bom rir; porque é fácil entender que, se não rirmos da grande piada que é a vida, começaremos a chorar pelo grande pesadelo afável que ela, muito lentamente, se tornou.

Eu sou um cara

"Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara"
-   Cazuza

As pessoas estão em todos os lugares, como um lembrete de que tudo é real. Sinto-me fora de sintonia - é verdade, este não é meu lugar. Eu sou o personagem que está no livro errado, o passageiro que pegou o ônibus e não pode mais voltar.
      Eu sou a personagem insignificante, que não fará diferença na estória. Estória com E. Porque tudo é falso. Até isso. Até eu.
      É engraçado, não? Escrevo, tento ser importante, mas, na verdade, minhas palavras não fazem diferença. 
      Então, por quê continuo a escrever?
      O personagem errado, de alguma forma, sempre será deixado para trás. Todos estão na frente. Na verdade, há muito não consigo vê-los. São como sombras, miragens de carne-e-osso, lutando, sobrevivendo - porém, estão tão longes... Estou viva? Como sei que não estou morta? Os vivos - eles estão lá, eu estou aqui -, temo perdê-los de vista completamente. Temo ser deixada, esquecida, como todos os outros. Os outros sem importância. Os outros como eu.
     Um dia, anônimo, - talvez um dia -, possamos nos encontrar. Por quê são os anônimos que são esquecidos - eu e você. Nós. Façamos companhia um para o outro, não? Não sejamos sozinhos. Cansei da solidão. Cansei do silêncio. Cansei de ser esquecida por quem nunca esqueci. Cansei de fazer o papel errado em minha própria peça. Peça escrita pelos meus próprios punhos marcados, feridos, sangrando. O sangue goteja, cai, vai longe, mancha; mas, no fim, ninguém percebe. Porque sou a Personagem Errada, afinal. A peça está pronta... estão ensaiando... eles vão longe... tento achar meu papel... E descubro que fiquei de fora. De novo.
     Então. Fujamos. Venha comigo. vamos para longe. Longe desse livro. Longe dessa gente. Longe desses mocinhos e dessas mocinhas românticas, tão boas, tão perfeitas. Tão utópicas e mentirosas.