Ao sabor do vento

Olhei mais uma vez para aqueles olhos cinzentos feito uma nuvem negra em pleno verão, e acenei pra garotinha dona dos tais olhos. Olhos que nunca esqueci. Ela me olhava parecendo me perguntar silenciosamente o porque que eu estava fazendo aquilo com ela; e eu não pude nem ao menos abrir meus lábios para dizer-lhes que estava tudo bem.
Tudo iria dar certo. Tinha que dar... Mas... A quem quero enganar? Mesmo ela, nessas circunstâncias, já deve ter percebido que o fim chegou. Lento e monótono, mas chegou; e nem nos deu aviso.
Ela se afastava cada vez mais, como se em câmera lenta. A grama verde cobria parte de seus pés calçados. Ela ficará bem - repeti para mim mesmo mais uma vez. Não consigo parar de fazer isso, como se fosse melhorar um pouco minha dor. Então repito as palavras, sem sentir, na verdade, os sabores destas. Não sinto o calor do sol, que bate em meu rosto com força, nessa tarde de outono. Não sinto o vento, que passa com força, levando a garotinha e folhas alheias para longe de mim. Analiso, e chego a uma conclusão: não estou vivo. Ou talvez esteja... talvez tudo isso seja momentâneo, afinal.
Não consegui me mexer por mais ou menos meia hora. Senti o êxtase da perda tomar conta de mim. Senti frio. Senti medo. Senti raiva.
Mas de tudo que eu estava sentindo, principalmente, senti falta. Eu precisava desesperadamente de seus olhos, nem que fosse por um mínimo segundo. Seu sorriso. Eu não tenho força para deixá-los; nunca tive.
Ela ficará bem...- repito mais uma vez. Ficará bem, mas não poderei ver isso. Não tenho o direito de usufruir de sua felicidade. Meu único dever foi cumprido. Entreguei-a à pessoas que lhe darão coisas melhores do que eu nunca pude e nem poderei dar. Espero que isso realmente aconteça.
O fato me arrebata eternamente. Acabo de ver minha irmã ser levada embora... pra sempre.
Então, desse maneira estranha, deixo pra trás tudo que não vivi e nunca poderei viver. Deixo o vento forte levar embora tudo, minha irmã, minhas lembranças, minha vida, e minha esperança. Enfim, tudo está ao pleno sabor do vento. Tudo isso nunca mais serão meus... já me conformei com isso.

2 comentários:

  1. Ai, ficou muito lindo!! Mas eu tenho uma pergunta: Eu posso colocar esse texto no meu blog? Eu coloco o autor, o blog e o link pra achá-lo...

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  2. Sim, assim que tiver tempo eu vou ler. Já tenho até quem me empreste a série inteira, suadhausd *-*
    Own, obrigada. Vou continuar sim ^^

    Que tristee D:
    Não me diga que esse texto é algo real que aconteceu com você... é?

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