Nerd e encalhada - Final

A noite do baile chegou. Eu não estava nem um pouco animada com nada daquilo. As VVbests resolveram tomar chá de sumiço, e não apareceram no colégio por esses dias; então, já dá pra imaginar como apareci nesse baile! Embora, eu não tenha muito do que reclamar, já que Victor me chamou para ser sua acompanhante. Isso mesmo, morram de inveja, o V-I-C-T-O-R me chamou para acompanhá-lo no baile! Isso comprova que a teoria de que caras descolados não gostam de garotas nerds é uma total mentira.

Exatamente às oito horas, a campainha de minha casa toca. Vou lá e abro a porta, me deparando com um, casualmente vestido, Victor. Nossa, esse garoto deve ser um extraterrestre; não chegou nem um segundo à mais, nem um segundo à menos, do que marcamos. Exatamente oito horas! Cara, isso é pontualidade demais!
Então, fomos andando à caminho da escola. Meus irmãos, como já era de se imaginar, não foram convidados por ninguém. Deixei eles e meus pais lá, se divertindo com suas áureas felizes, ou só Deus sabe mais o que.
- Hm... posso te falar uma coisa? - perguntou Victor uns dez segundos depois de sairmos de casa.
- Você acabou de falar uma; mas vai lá, fale.
- Você pode voltar a usar seus óculos?
WTF?! Socorro, estou ao lado de um maluco!
- Por quê? - perguntei-lhe assustada, olhando para ele pasma da vida.
- Te acho linda de óculos. - respondeu-me ele, com as bochechas levemente coradas, e os olhos baixos.
Se a pergunta dele havia me assustado, essa sua resposta quase me matou do coração. Fiquei tão sem graça, que peguei meus óculos na bolsa e pus eles no rosto. Andamos em um silêncio constrangedor até a porta do colégio - não que eu tenha achado isso muito ruim.
Não sei se é minha falta de experiencia e tal, mas eu achava que um baile deveria ser mais... formal(?). Pois assim que passei por aquela porta cheia de confetes, logo na entrada da escola, me deparo com alo que me parecia, digamos, um baile funk de Rio de Janeiro. Aliás, nem em um baile funk as pessoas se vestiriam dessa maneira. Acho que eles pensaram que era uma festa de índio, onde todo mundo poderia aparecer semi-nus para dançar, encher a cara de bebida, e fazer essas coisas que somente adolescentes do planeta Terra conseguem fazer.
- Será que estou vestida erroneamente? - perguntei à Victor.
Ele me olhou vagamente, parecendo não ter entendido o que eu disse. Creio que pessoas bonitas como ele, não precisem passar no dicionário de vez em quando, e aprender que "erroneamente" significa errado.
- Hum... quem se importa? Vamos dançar! - respondeu-me o burrinho - que, apesar disso, é um gato!
Cadê esse moleque? Ele saiu para pegar uma bebida à mais de meia hora, e até agora não voltou. Tenho duas hipóteses: ou a fila da bebida está maior que a fila do SUS, ou Victor tem algum distúrbio mental, e ainda não conseguiu achar a fila certa. Tá, prefiro ficar com a primeira hipótese. Saio em procura dele, mas nada. Nem sinal de um fio de cabelo dele. Nem na fila da bebida, nem na pista de dança, nem no teto - sim, eu procurei no teto também-, e nem no banheiro - não,não sou louca de entrar no banheiro masculino. Pensei em procurá-lo no banheiro feminino, mas... Não! Nem morta que eu vou desconfiar que o menino é... Ah, você já entendeu!
Fui, então, caminhando pelo colegio. Eu nem tinha mais esperança de achar ele, mas é melhor caminhar do que ficar sozinha no meio de um baile funk... não,não, quis dizer de um baile escolar. Sério, eu nunca havia percebido o quanto esse jardim é lindo! Nossa, as flores são realmente bonitas.
Ali, no meio de umas árvores bem ao canto do jardim vejo duas pessoas. Duas pessoas num agarra agarra que só. Perguntei-me se aquele era um filme de Leonardo Dicapriu, ou algo parecido; mas, precisa mesmo eu falar que não era? Fui andando, me aproximando da cena aos poucos; morrendo de medo de ser vista. Me escondi atrás de uma árvore um tanto distante dos dois pombinhos - se é que posso chamá-los assim- e aperto os olhos para decifrar de quem se trata.

Levei a mão à boca, para estancar minha própria surpresa. O que é que eu estava pensando, quando achei que ele gostava de mim? Sai correndo dali, sem nem olhar para trás, ou ver se eles estavam, agora, rindo de minha inocência. Não quero saber se amanhã serei a maior notícia do colégio, ou se ninguém nem vai notar que meu "acompanhante" estava se agarrando com uma menina qualquer. Só quero mesmo é voltar pra casa, e pronto.
No meio de toda essa correria, me esbarrei com um retardado que resolveu ficar no meio do caminho. Cai no chão e meus óculos voaram pra algum lugar distante o suficiente para eu não encontrá-los.
- Você está bem? Desculpa. - ouvi o retardado dizer enquanto me ajudava a levantar.
Eu estava decidida a nem olhar para cara dele, até porque meus olhos se enchiam de água. Assim que me levantei, sem dizer-lhe uma só palavra - nem por educação-, preparei-me para correr novamente. Mas a criatura resolveu me segurar pelo pulso. Tentei me soltar, mas o cara era pior que chiclete usado.
- Você está bem? O que aconteceu? - perguntou-me ele.
Não lhe respondi. Continuei a tentar me soltar, e passei a estapeá-lo sem dó alguma. Mas o cara era osso duro de roer mesmo. Agarrou meus dois braços, me impossibilitando de usá-los como uma arma mortal, e olhou nos meus olhos, que já estavam mais que ensopados de lágrimas.
- Eu posso te ajudar, se você me disser o que aconteceu.
Por que caixas d'água eu ia contar algo tão pessoal para um moleque que acabei de conhecer? Tentei, pela última vez, me livar do garoto, mas não deu. Não deu mesmo. Desisti. Fiquei parada lá, com o rosto baixo, enquanto minhas lágrimas continuavam a descer, e meus braços ainda estavam presos pelas mãos do garoto. Então, tão de repente, ele me abraçou. Me abraçou de verdade, me apertando com força, como se isso fosse normal. Realmente, abraçar uma garota que você não conhece é bem normal...
- Por que você está chorando? O que foi que aquele idiota fez? Eu disse à ele que se ele te fizesse chorar, eu matava ele.
Eu ainda chorava, enquanto aquelas palavras malucas vinham até mim. Ele falava como se me conhecesse. Mas, eu não o conhecia. Nunca havia visto aquele rosto antes, eu acho.
- Como assim, você falou pra ele? - perguntei a ele, sem levantar o rosto, e nem sair de seu abraço.
- Você aceita sentar comigo ali, no jardim?
Ele me escutou pacientemente. Não olhei pra ele em nenhum momento, mas senti seus olhos presos em mim. A noite avançava um tanto fria, e eu não fazia idéia de que horas era. Não consegui parar de chorar, mesmo quando contava a ele o que aconteceu - nem eu sabia que uma pessoa poderia ter tanta lágriam assim para chorar.
- Eu não sabia que ele era tão idiota assim. - afirmou ele, pegando no meu queixo e suspendendo meu rosto.
Nossos olhos se encontraram, ficamos uns segundos nos olhando. Nos fitamos com uma atenção inibida. Até que... Eu não consegui evitar. Ele foi se aproximando de mim, lentamente, e... Não consegui fugir daquilo. Seus lábios tocaram os meus, e nos beijamos. Meu primeiro beijo foi com alguém que - pelo que sei- acabei de conhecer.
Separei meu rosto do dele rapidamente. Com medo, enquanto meu coração batia à mil - não sei se pelo susto ou pelo...
- O que você fez? - lancei a pergunta, de pé, olhando pra ele desesperada.
- Tá, me desculpe! - ele também estava de pé agora, olhando pra mim com tanto medo quanto eu.
Abaixei os olhos, tentando mostrar interesse em alguma coisa no solo, e abracei meus proprios braços, me protegendo de um medo crescente.
- OK. - respondi, ainda sem graça.
Um outro momento de silêncio tomou conta do lugar, somente com o som de uma música distantemente tocando. Até que o garoto começou a falar.
- Sabe, eu sempre quis saber qual era o sabor do teu beijo.
Aquilo me pegou desprevenida. Levei um susto imenso, e prendi a respiração, enquanto olhava pasma pra ele. Mas ele contiuou:
- Sempre quis saber como era te abraçar, tomar você em meus braços. Mas... era impossivel. Você nunca falava comigo. Você parecia me ignorar. Nunca tive coragem de falar com você. Achei que você me odiasse, até porque não sou bom aluno. Sou invisível para todo mundo aqui. Só uma pessoa até hoje se dispôs a falar comigo, e foi o Vic..
- Dá pra parar?! - interrompi ele. Não suportava ouvir aquele nome mais uma vez.
- Tudo bem, eu entendo. Não se preocupe, ninguém nunca saberá que isso aconteceu. Não falarei a ninguém, juro.
- Não... Não é isso. Só... quer dizer, eu... Eu gostei do seu beijo. - confessei constrangida, sem olhá-lo.
Uns cinco segundos depois, senti seu abraço novamente. Agora com mais força ainda. Ele parecia querer me matar de uma vez.
- Posso te pedir uma coisa? - perguntou-me ele, ainda me apertando em seus braços.
- Pode.
- Posso te beijar mais uma vez?
Foi só assim que descobri que ás vezes não é necessário você mudar a si mesma pra dscobrir que alguém gosta de você. Ele gosta de mim, sei disso. Ele gosta tanto de mim, que mandou que me entregassem meu boletim escrito: "Eu amo você". Tá, isso é bem nerd; e daí? O que importa é que ele gosta de mim do jeito que sou. Ele gosta de me ver de óculos, mas continua a me achar linda quando não uso. Ele não se importa se meus irmãos serem um bando de malucos, ou se meus pais não tomam banho. Ele gosta de mim mesmo sabendo que nunca conseguirei ter um guarda roupa atualizado, ou que nunca uso maquiagem.
Ah, sim, esqueci de falar das VVBests. Descobri, uma semana depois, que elas haviam sofrido um acidente de trânsito, e por isso faltaram todo esse tempo. Imagine a cara que elas fizeram quando souberam que estou namorando o J.P - que é mais conhecido como o burrinho da sala. Elas ficaram loucas da vida, dizendo que eu deveria ficar com o Victor. Já o Victor, ficou bem sem graça, quando perguntou à J.P porque ele estava andando de mãos dadas comigo. É, ele só faltou enfiar a cabela num buraco, de tanta vergonha - embora eu não saiba exatamente o porque.
Agora, não importa mais com quem eu ando, ou com quem falo. Só quero mesmo é amá-lo pra sempre. Quero ficar sempre ao lado desse retardado burrinho; você tem algo contra?

Fim*-*

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