Página de um diário



- Você está rindo? - ouvi sua voz dizer-me. Ignorei-a. Eu não o conheço, e pareci feliz com isso. 


Eu e minha mãe estavamos voltando do colégio, com passadas lentas, e eu realmente estava rindo. Mas não dele.


Seu corpo, queimado com o sol cruel, fedia. Seus cabelos pareciam um grande deposito de sujeira, falta de esperança e desumanidade. Aliás, todo aquele homem parecia ser um poço disso. Mas o desumano não é ele, mas quem o deixou naquela situação. Esses são os verdadeiros culpados. Acho que, nisso, estou me incluindo. Também sou uma culpada.


E, talvez, ele nem tenha falado nada. Talvez minha imaginação - ao qual eu devo chamar de consciência - tenha criado aquela frase que veio até mim. Mas aquela voz... era tão realmente sofrida. Rouca, tomada pelo sofrimento, e faminta. Ela parecia, ao menos agora, muito real. Mais real do que eu gostaria de lembrar. 


Mas não real o suficiente para me fazer ajudá-lo concretamente... Me satisfaço em somente orar por ele. Como se isso fosse o suficiente. O mundo está cheio de oradores e de pessoas boas em ignorar, e essa é uma ferida insarável, ao meu ver... Sou sempre tão pessimista... E eu ria, naquele momento que ele passava fome; agora devo parecer uma insensivel burguesa - e é nisso que estou me importando?! Droga, não acredito que estou pensando mais na minha imagem do quê na fome daquele homem. Na verdade, acredito, sim. E sinto repulsa à isso. O fato não é que eu estava rindo, mas que eu fazia isso enquanto ele chorava por dentro. Eu estava saciada, enquanto ele passava fome e retrucava do humor dos outros, que estavam ao seu redor e bem alimentados. Para ele, o mundo é injusto. Para mim, ele é insensivel. Nesse fato, somos iguais, ambos podemos ver os problemas que estão ao nosso redor, sem ignorá-los completamente; só que eu não devia estar nos comparando. Ele sofre muito mais, e eu apenas sou expectadora disso. Eu apenas assisto ao seu sofrimento incolor, e vejo ele como se fosse de cor cinza... um cinza cruelmente triste e desbotado.


No fim, não faço nada, só oro. E o mundo continua rodando desse modo: todos oramos por aqueles que nem são importantes para nós. Todos queremos nos importar com quem não conhecemos, mas não conseguimos. E o mundo segue cheio disso... Acho que um dia ele explodirá.


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Ohayo!
Essa é mais uma página de meu diário pessoal - que agora não me parece tão pessoal assim. Só o final que eu mudei, acrescentei linhas na verdade. O resto está idêntico ao meu diário. Para alguém normal, escrever isso em seu diário pessoal deve ser estranho, mas, para mim, é a unica utilidade daquele caderninho simples e, para os outros, aparentemente besta e unutil. ^^'
Sem contar que esse mendigo falando comigo foi bem... tenso. Minha mãe, ignorou-o, como já estava fazendo comigo, enquanto eu tagarelava qualquer futilidade por aí. Não sei se ela ignorou-o mesmo, não o ouviu, ou se o mendigo falou mesmo - acho que, talvez, tenha sido somente a voz da minha consciência afinal.

E é ai que te dou uma dica: nunca ande com malucas como eu, que escutam a voz da consciência como se ela fosse a voz  um mendigo maltrapilho. o.o'   Mas, por fim, esse texto é apenas um diálogo comigo mesma, criticando uma ação que eu e a maioria faz: ignora os mendigos que clamam por suas moedas, nas ruas. Mas continuo somente orando por eles...  ¬.¬'


Bj'
Itadakimasu!

5 comentários:

  1. Como é bom ler o seu diário! Aliás, quando criaram os blogs foi com esse intuito; para que, principalmente as meninas abandonassem os seus diários por uma página na Internet. Hoje todos querem um blog. Até os figurões das TVs. Têm Blog. Twiter, etc.! Tomaram os espaços dos pequenos diários.

    Agradeço-lhe profundamente pela sua visita em “meu diário”!

    Beijos!...

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  2. O final foi bem verdadeiro! Eu sempre vivo dizendo isso a mim mesma, que eu tento me importar com alguém que eu não conheço mas não consigo. Posso dizer que fico com um peso na consciência por isso.
    Ótimo texto!
    E seu diário deve ser espetacular!

    mudei: noiteperversa.blogspot.com

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  3. Amei o estilo que você escreve no seu diário!
    E o final foi bem a realidade!
    Bjos!

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  4. Oi querida!
    Eu me identifico com vc, as vezes piro tbm quando acontece certas coisas.
    Q tenso heinm?
    ^^
    Adoro seus textos!
    :3

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  5. Ai, desse jeito eu vou querer ler o resto do diário, Shizzu !
    Eu tenho muita pena das pessoas que não estão saciadas como nós'
    Eu passei a ser mais sensível quando fui morar num lugar em que havia um mendigo perto, que estava sempre ali, e só não saía porque tinha a perna quebrada. Normalmente, ele pedia moedas, e eu (escondido, claro) revirava a bolsa da mamãe e achava algumas, e dava tudo pra ele. Mas olha onde eu estou agora, na internet, saciada, batendo fotos pro orkut enquanto tem um homem lá fora, que daria qualquer coisa pra estar aqui. E o que eu faço pra agradecer minha boa vida? Nada.
    Esse é o meu problema; eu sinto nojo de mim mesma muitas vezes, mas não mudo, não consigo mudar por ninguém. Acho que devo ser deficiente de amor e gratidão...
    Mas ainda assim me dói lembrar dele. E as minhas lembranças são o mais nítidas possíveis.






    ;*

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