Coisas a parte

O que fizeram com você?
        Está ai uma pergunta que eu gostaria muito de saber responder.
        Você não sabe. Eu também não sei.
        Virei uma egocêntrica. Acho que ando pensando em mim por muito tempo... Isso não dá certo.
        Como resultado, penso em coisas.
        Como resultado, acabarei me matando.
        Não, calma. Não falei literalmente. Também, não importa se falei, ou não. Só saiba que pensar em si mesma por mais de cinco minutos, resulta nisso: você começa a se odiar.
        "O que fizeram com você?"
        Alguém me perguntou.
        Eu não soube responder. Eu não queria.
        Ri, sem graça.
        "Tenso".
        "É. Também acho."
        É, ele também acha.
        E nossa conversa chega ao fim. Não por falta de assunto. Não por falta de vontade. Mas por vergonha do que me tornei.
        Não digo nada. Não posso dizer. O que eu me tornei, não sou eu. A garota que vai ao colégio todos os dias, que passa as aulas divagando sobre coisas sem um pingo de importância, não sou eu.
        Aquela é a minha evolução. A transformação de alguém para algo.
        Sinto falta de falar da política, de como ela está uma merda.
        Sinto falta de falar daqueles que se matam, dos covardes da vida alheia.
        Sinto falta de muita coisa.
        Mas o tempo passa.
        Não se apegue demais às pessoas. O vento as levará embora.
        Então, vejo, posso transformar esse texto num conjunto de belas palavras sobre o abandono.
        Serviria de algo?
        Não.
        Olho para o lado. Penso na cozinha. Lá tem uma coisa. Uma coisa que quero muito, mas me seguro para não ter... A coisa me chama. Mas não posso ir até lá. É longe. Alguém verá. E se me virem fazendo o que quero fazer?
        "Por quê faz isso?"
        "Porque dói".
        "A dor passa".
        "O problema não é se ela passa ou não. O problema é que ela está aqui".
        "Você supera".
        "Não estou a fim de esperar pela superação".
        Fim de papo.
        Um texto sem graça, esse, não acha?
        Do que estou falando? Não queira saber. São coisas que não entendo. Coisas que eu criticava muito, antes, e agora quero fazê-las. Descobri que não é tão errado.
        A coisa que está na cozinha, continua me chamando... "É só mais uma vez", a coisa diz. Eu sorrio. "Sim, só mais uma vez...". Mas não posso ir até lá. Droga.
        Eu queria muito a coisa.
        Droga.
        Alguém tem uma dessas "coisas" para me emprestar?
        "Vai mudar, sua vida vai mudar".
        Ela já mudou demais, amigo.
        Demais.
        Mais do que posso suportar.
        Cale a boca.
        Pare de me julgar.

Um comentário:

  1. Sorella, adorei o texto, combina com você. Sei lá, eu gosto de coisas espontaneamente perfeitas... Sobre o layout, bem, combina com você atualmente, mas de certo modo, o "amava" agora ficou com um tom mais sério. Enfim, tudo que você disse é o que eu digo agora e o que sempre direi: Sou nada, fui nada, serei nada... Pessoas são assim mesmo, vão e vem... assim como a vida... [Suzaku ~ he]

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