"Era mais um dia"

Eu queria muito começar uma história linda, acompanhada com um "era uma vez" bem enfeitado. Mas onde eu vivo, ninguém nasce ouvindo um conto de fadas. Não estamos num livros. Isso é real. É a vida. É onde você vai morrer.
        Sim, onde você vai morrer.
        Então começo essa história com um "era mais um dia"... Era mais um dia, normal, melancólico, lento e moribundo. As ruas da cidade berravam, gritavam sua existência. Estou presa num labirinto de concreto. Aqui, ali, acolá; posso ir em qualquer lugar.
        E continuo parada, de frente a uma praça acabada, quase inexistente, esquecida pelo passar do tempo, pela sua falta de beleza. Gravo mentalmente: quando você é belo, raramente é esquecido.
        Se você já foi belo (e já não é mais), será ignorado.
        Me sento no que já foi um banco, e hoje serve de cama para quem não tem um teto para proteger-se. Creio que todos me consideram louca; louca porque provavelmente pareço que quero apenas um lugar pra pensar.
        Não, eu não quero pensar.
        Quando penso, penso no fim disso tudo. Quando penso, me dá vontade de desistir, de ver logo o final. Quando penso, a altura estupenda daquele prédio antigo logo em minha frente, parece me chamar para uma queda livre...
        Então, a ultima coisa que quero é pensar.
        As pessoas passam pela rua.
        O toque de celular me irrita.
        Alguém ao longe grita.
        Todos começam a correr.
        Não entendi muito bem, mas continuei sentada.
        Logo, a rua estava vazia, todos gritando, correndo, se protegendo de algo que eu desconhecia. Olhei para o lado.
        Dois homens.
        Um corria.
        Não era mais um fugitivo estupido, mais um "homem de negocios". Não, não era.
        Ele não usava terno.
        Suas roupas não passavam de uma calça imunda, tão suja quanto essa praça nojenta.
        Outro homem vinha logo atrás do primeiro. Ele usava roupas melhores. Sua mão segurava algo preto.
        Algo preto... Eles pararam de frente a mim, como um espetaculo, um show ao vivo.
        Continuei parada.
        O primeiro, com calças folgadas e pretas de todo tipo de sujeira, tropeçou. Suas mãos vieram ao rosto desesperado. O segundo parou, logo atrás dele, a coisa preta sorrindo poderosa em sua mão alva, tão branca quanto porcelana.
        Um sorriso. Um choro lamentoso.
        Um se encolheu, o outro se ergueu.
        Aquilo era uma guerra. O vencedor já havia sido escolhido.
        Dois estouros. Nada de "bang bang". Foram duas explosões minimas e rapidas.
...
        E agora o cenário da cidade mudava. havia os prédios acabados, a praça já não bela, a garota idiota sentada num banco, e um corpo ensanguentado no chão.
         O outro homem foi embora.
        - Se você tivesse pago pelo pó, estaria vivo, otário.
        Um riso.
        Ele olhou para mim. Será que me viu? Impossivel não ver. Ele sorriu.
        - É melhor se manter calada, vadia.
        E foi embora.
        Sim, era só mais um dia, normal, melancólico, lento e moribundo. Alguém morreu. Mas todos algum dia morrem.

2 comentários:

  1. Muito profundo, sinceramente também sinto que estou presa a um labirinto de concreto, sinto também que por mais que grite ninguém vai ouvir... "Era mais um dia" para todos aqueles que não me escutam, porque pra mim é mais um dia em agonia...
    Adoro tudo o que você escreve! =]

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  2. Realidade cruel. Todos presos nesse labirinto cotidiano que só piora a cada dia. A ganancia predominando, a humanidade cada vez mais desumana. O anormal tornando-se normal e ninguém parece ver onde chegamos. As aparências não dizem mais nada. Os suspeitos são suspeitos, os não suspeitos são ainda mais suspeitos. Ainda me pergunto onde me encaixo no meio de tudo isso.

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