É muito fácil


Uma alma grita no meio da rua.
        Quase posso tocar em seu desespero, sentir o cheiro possessivo de sua fome.
        Debaixo de suas poucas vestes imundas se esconde um corpo franzino, os ossos aparecendo sem vergonha. Seus cabelos desgrenhados emolduram seu rosto magro, a aparência definitiva da morte lenta, seus lábios ressecados sem conseguir levantar nem ao menos um sorriso.
        Sim, diante de todos, meus olhos fixam-se nele - nessa pessoa. Num homem em particular. Suas pernas jogadas no meio do passeio, seus braços caidos ao lado do corpo. Sua respiração sai como uma facada no peito do mundo, como um intruso no meio de uma festa badalada. Lenta e perigosa; ele respira; desesperado e faminto; ele suspira.
        Sinto-me envergonhada de fazer parte de uma sociedade em que "pessoas" passam por muitas outras que gemem no meio do passeio, gritam com os olhos, com o cheiro desumano da fome em seus hálitos fétidos... E... não conseguem nem ao menos olhar-lhes nos olhos. Que especies de seres somos, que vemos pessoas morrerem de fome e não fazemos nada?
        Somos capitalistas.
        Eis ai nosso pequeno problema.
        No meio do ônibus, as pessoas encostando-se umas nas outras em seus cansaços palpáveis; alguém grita para nós seu clamor (seu pedido) de ajuda. Ninguém o nota, ninguém o vê. ELe está ali - aquela pessoa definitivamente existe, e está nos pedindo ajuda - mas ninguém "tem tempo o suficiente" para dar-lhe o direito de ter nossa atenção. Não é estranho? Paro para ouvir o que o homem diz: "O justo não passará fome", ele fala. "Para o justo, há sempre uma saida, uma solução" - ele completa.
        Se eu dissesse que acredito, estaria mentindo e ignorando os milhares de Joãos e Marias que vejo nas vielas, suplicando por comida. Morrendo por sentir fome. Matando por querer um prato de comida e um punhado de respeito. Se eu dissesse que "o justo não passa fome", estaria fingindo a inexistencia de centenas (quem sabe trilhões ou bilhões) de garotos de rua, ignorando suas vestes esfarrapadas e seus lábios partidos, fingindo não ver as armas que eles carregam por entre os dedos magros e trêmulos; na verdade, é muito fácil fazer isso. É muito fácil fazer do seu mundo, apenas você; não ver quem está ao seu redor, não ouvir os gritos que enchem as ruas e preenchem as esquinas. É muito fácil sorrir, quando ignoro.
        Diz-se que viver é dificil. Na verdade, não é. Siga as instruções do jogo, e se sairá bem. Ignore. Ignore tudo, todos, o mundo.
        É fácil viver.
        É muito fácil agir como humana.

2 comentários:

  1. é por isso que eu amo seus textos. estampam a realidade, usando palavras bonitas e poéticas sem esconder o problema. o jeito que voce consegue por tudo em palavras preenchendo as linhas é tao...surpreendente!
    eu te admiro de mais.

    ahh, e sim... aquele texto eu que fiz e eu que sinto. todos eles ):

    valeu por dar um sinal de vida la no PCMB de novo *u* beeijo, nee-chan

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  2. Oi,amiguinha(achei legal seu blog),visite/siga o Blog do XANDRO
    (meu blog para retribuir o carinho)vc vai gostar!;)

    http://blogdoxandro.blogspot.com/

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