Meu mundo é interessante.
            Nós – nós conseguimos sentir.
            Demorei um bom tempo pra aprender; quase vinte anos. Claro, costuma-se demorar muito mais. Há todo um processo, toda uma técnica. Somos todos idiotas.
            Idiotas por querer ser iguais aos humanos.
            Cresci ouvindo o quão parecido éramos, mas o quão distante estávamos de sermos humanos.
            Não me pergunte o por quê.
            Há motivos.
            Mas não me importo com eles.
            Ser ensinado a sentir parece ser mais eficaz do que nascer “sentindo”, eu acho.
            Eu não nasci sentindo. E daí? Isso não torna aqueles seres... humanóides... melhores que eu.
            Sim, eu pensava nisso enquanto a nave Beta passava por cima daquela imensidão cinza e melancólica que hoje é o que chamamos de Terra. Sorri para o espaço sideral, fiz-lhe um pedido silencioso: não mate os humanos.
            Há um Deus perdido por ai, espero que ele escute orações de Vogons. Por que não? Assustei-me quando ouvi um ruído similar com uma tosse seca, logo às minhas costas. Virei-me para ficar de frente com a luz lacerante, branca e cruel, do corredor de passagem para o refeitório barulhento. Eu podia ouvir uma poesia muito bem interpretada, sendo lida lá de dentro; a voz ruidosa e rouca errando alguns erres e guinchando em uns cachs. Não acredito que estão lendo em Vogoniano antigo. Isso é arcaico, absurdo e, ainda por cima, ousado (juro que li em algum lugar que esse idioma tinha sido banido, pelo tanto de suicídios que provocou).
            - Sonhando acordado de novo? Mandou, aliás, o relatório do “posso sonhar acordado” para o chefão? – seus olhos (e não eram poucos) me incomodaram por um tempo. Concordei, quanto a sua pergunta, queria livrar-me daquele ser, ver toda aquela roupagem rugosa e verde longe de mim; sou Vogon, mas odeio burocracia. Incomum, não acha? É, como disse, somos todos idiotas.
            Alguém gritava, bem ao longe. Alguns lamentos clamavam por clemência. É, a poesia começava a fazer seu normal efeito.
            Meu “amigo” olhou para trás.
            - Inúteis. Estão fazendo uma revolução lá no refeitório, acredita? Uma revolução em forma de poesia! Absurdo. Falta de consideração. Querem que Deus nos reconheça como seus filhos, assim como os humanos – é o que a poesia diz. Todos uns tolos! Humanos? Eca! Não entendo esses proletários de hoje em dia.
            Seu rosto rugoso se contorceu em mil e uma caretas que tenho o prazer de não detalhar. Seus diversos olhos azuis esperavam de mim uma resposta; ele com certeza não sabia que eu fazia parte do movimento “Mais uma vez, filhos de Deus”. Sorri para seu interesse, meu costumeiro sorriso falso.
            Se eu fosse seguir a burocracia, esse meu sorriso custaria duas cartas de permissão para a Suprema Corte Universal de Expressões Faciais. Direitos autorais, licença de uso, registro; enfim... Ok, não pretendo perder meu tempo com isso.
            Eu estava pronto para dizer qualquer coisa para o rugoso, quando a nave começou a sacudir com uma violência precisa e nem um pouco comedida. Uma voz chata e enjoada, falou pelos megafones:
            - Estamos adentrando na atmosfera terrestre; por favor, segurem-se firmes e, para qualquer tipo de reclamação e/ou pedido de melhorias, mandar relatório para a sala cinco e esperar por respostas. Não pagamos indenização pelos danos provocados durante o impacto da viagem; repetindo: Não pagamos indenização pelos danos provocados durante o impacto da viagem. Fim de transmissão.
            Oh, sim, tínhamos chegado.
            Aquela voz quase arrancou-me o juízo, de qualquer forma. Desejei para que um “dano provocado pela viagem” a atingisse, de maneira que ela não pudesse mais falar; oh, sem indenização, ela disse? Melhor ainda. Eu poderia ter certeza que ela ficaria muda pelo resto da vida.
            O governo não lhe pagaria o tratamento, e muito menos o comandante da embarcação.
            Beta parou de sacudir, antes de dar um solavanco brusco e começar a flutuar sem rumo, cortando as nuvens cinzentas e densas que cobriam todo o azul celestial do planeta Terra.
            - Chegamos ao destino. Repetindo: Che-ga-mos ao des-ti-no.
            Oh, nenhum dano causado.
            Droga.
            Deus, por um acaso, não quis ouvir um mínimo pedido altruísta meu. Que seja. Ignorei o quanto ela soletrava a frase, enquanto voltava meu olhar à janela novamente.
            Meus olhos caíram na cidade humana.
            Na cidade que iríamos destruir.
            A destruição já soava muito viva, em uma certa voz enjoativa que nos acompanhou pela viagem inteira.
            Soletrei o nome do lugar que, provavelmente, viraria pó: São Pauro. Ou será que era São Paulo? Sempre me confundo com esses erres e eles terráqueos.
            Dá tudo no mesmo.
            O pó formado por toda essa velharia ultrapassada, feita de concreto (concreto!), será o mesmo, independente de o nome da cidade ser São Paulo ou São Pauro. O final não justificará o meio, acho eu.
            Filosofia terráquea, enfim, é pior que seus métodos de construção civil.
            Embora isso, não quero que eles morram.
            Oras, formei-me na faculdade de Sentir ano passado! Agora querem que esse meu lindo diploma seja desperdiçado? Eu podia ter sido preso por participar de aulas tão vulgares, podia ter morrido numa das perseguições que a polícia intergaláctica fez atrás dos alunos de tal organização, e podia ter me perdido durante o intenso processo de mudança que fazíamos do campus! E agora, que me vejo tão próximo de, enfim, tentar me enturmar e aprender mais dos humanos (e, quem sabe, escrever meu livro teórico “Terra, o planeta dos Áqüeos terrestres”), eles querem destruir tudo? Ah, o que é uma pequena divida? Dez zilhões de prata galáctica não é nada, se olharmos bem de perto! Certo, eles não pediram autorização para aprenderem a andar, e nos desrespeitaram totalmente quando decidiram fazer suas próprias línguas sem o devido pedido formal, mas, convenhamos, eles não sabiam escrever. Como mandar um pedido formal para a Corte intergaláctica, se não sabiam escrever?
            Essa multa acumulada por eles já devia ter sido perdoada.

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Ok, só entende quem já leu O Guia do Mochileiro das Galaxias   [;
Um conto muito barato e sem graça, eu sei, eu sei... Mas, enfim, decidi atualizar o blog e fazer isso colocando os textos logo de vez (enquanto tenho tempo e coragem)  x] - 
P.s.: Quem entender as ironias pobres desse conto e as tentativas-de-piadas do mesmo, manda sinal de vida!

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