"Dado viciado"


"Cadê a criança? Meu primo e irmão
Se perdeu por aí, com seringas na mão"
- Legião Urbana


Seus olhos.
        Nunca vi dor tão profunda, quanto a que vi em seus olhos.
        Um vazio. Eles estavam vazios; mas, por quê será que continuei vendo apenas dor? Medo. Solidão.
        Ele é como nós. Algum dia, nós seremos como ele.
        Vi seu corpo trêmulo, em plena luz do dia, um sol insuportavelmente quente fazia minha pele pinicar. Mas ele tremia. Um lençol velho, inútil, cobria seu corpo, e sua cabeça encostava-se pesadamente no muro cheio de um limo displicente.
        Eu sabia o que estava acontecendo.
        Sou grande o suficiente para saber que é aquilo; aquilo de novo, e de novo, presente. Aqui. Agora. Nele. Em outra pessoa. Em muitos.
        Lembro-me de outro ser, de outro que também quer mais aquilo do que quer a si mesmo. Os olhos vermelhos do rapaz se dirigiram até mim, com uma falta de segurança, falta do querer - falta do viver -; e quase pude ver outra pessoa, a não ser aquela que estava diante de mim.
        Tenho certeza que eram os mesmos olhos.
        As mesmas drogas de olhos. Cheios daquilo, cheirando àquilo, vivendo por aquilo.
        Aquilo...
        ...Aquilo.
        Tenho medo de dizer as palavras; tenho medo do sabor que elas deixarão em minha boca - que dizem ser boca infantil. Eu sou uma criança. Mas aquele rapaz, ali, jogado, olhos vermelhos, também o é. Somos crianças; temos medo do escuro, dos montros, e nos escondemos abraçados à bonecos de pelúcia. Tanto eu, quanto ele. Eu e ele.
        Somos um. Somos o mesmo.
        Aqueles olhos me pareceram perfeitos para uma definição Machadiana: olhos de ressaca. Não eram dissimulados, mas pareciam tão profundos quanto o mar. A dor era tão grande... tão real... tão facilmente invisivel... Deus que me perdoe, eu estava prestes a parar ali mesmo, no meio da rua, sentar-me com o rapaz e pedir para que me abraçasse.Me tirasse daquelas lembranças estranhas; lembranças do que não é meu.
        O que tenho a ver com ele? O que ele tem a ver comigo?
        Deixei que um diálogo silencioso se seguisse, com nossos olhos se tocando, se explorando. Ninguém entenderia, porque todos são humanos. O que faziamos não era nada sentimental, nada normal, nada que vocês conheçam. Nós estávamos nos apoiando, tentando seguir em frente.
        Um diálogo de força vazia:
        - Você pode sair dessa. - minha voz; minha voz era tão branca quanto as nuvens. Era um murmurio, mas soava como um grito.Um grito que não dei.
        Dor...
        Nos olhos dele - eu vi dor.
        Ele abanou a cabeça.
        - Não. Eu não posso.
        - Por quê?
        - A dor de ser ignorado é forte demais.
        Segui em frente, com minha vida sem graça, sem aquilo, sem mais nada. E, num momento de tristeza, percebo: os dias passam, as pessoas também, e meu futuro será capaz de ignorar aquele rapaz, assim como todos os outros o ignoraram.
        Afinal, eu sou um monstro igual à você.

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Ai, ai; tentei até reescrever o texto... Não saiu nem parecido. Os fatos que usei para escrever foram os mesmos, mas as palavras se transformaram, se uniram, e formaram uma coisa diferente. Será que seria ideal para eu dizer aqui que isso é baseado em fatos reais...? Seria estranho? Fora o diálogo, creio que o que fiz foi só um juízo de fato. E, percebo, o tema do texto saiu o mesmo do anterior postado (Agora, ignorada) - não por vontade própria, mas sem querer.

E, no fim, meus esforços foram em vão... o texto não prestou, de qualquer forma. Bem, deixa pra lá. É bom sabermos que as palavras se vão, e não voltam.

Ja nee.

Um comentário:

  1. de pensar que meus olhos já estiveram como o de 'vocês'...
    mas, sigo em frente e ignoro quem eu sou, quem eu fui, quem eu serei, o que fiz, o que farei.
    e tenho toda a coragem para devorar um ser humano com meus olhos, olhos vazios e famintos.
    afinal, a vida é minha, certo?
    devo seguir com meus olhos, meus pecados, minhas conquistas, meus medos, meu ódio, minhas mentiras... desprezando tudo. tendo pena de todos.
    pena é o antônimo de inveja.
    são similares e antagônicos...
    a inveja deseja, a pena rejeita.
    sentir pena é estar com os olhos abertos virados na mesma direção de algo que você não desejaria ser.
    então, para não sentirmos pena, viramos o rosto para algo que possamos ter inveja.
    eu desisti de virar meu rosto para o outro lado, ao mesmo tempo que desisti de olhar para as dores dos outros.
    vejo apenas sombras, sim, espelhos do que sou.

    #he. Suzaku.

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