Eu sou um cara

"Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara"
-   Cazuza

As pessoas estão em todos os lugares, como um lembrete de que tudo é real. Sinto-me fora de sintonia - é verdade, este não é meu lugar. Eu sou o personagem que está no livro errado, o passageiro que pegou o ônibus e não pode mais voltar.
      Eu sou a personagem insignificante, que não fará diferença na estória. Estória com E. Porque tudo é falso. Até isso. Até eu.
      É engraçado, não? Escrevo, tento ser importante, mas, na verdade, minhas palavras não fazem diferença. 
      Então, por quê continuo a escrever?
      O personagem errado, de alguma forma, sempre será deixado para trás. Todos estão na frente. Na verdade, há muito não consigo vê-los. São como sombras, miragens de carne-e-osso, lutando, sobrevivendo - porém, estão tão longes... Estou viva? Como sei que não estou morta? Os vivos - eles estão lá, eu estou aqui -, temo perdê-los de vista completamente. Temo ser deixada, esquecida, como todos os outros. Os outros sem importância. Os outros como eu.
     Um dia, anônimo, - talvez um dia -, possamos nos encontrar. Por quê são os anônimos que são esquecidos - eu e você. Nós. Façamos companhia um para o outro, não? Não sejamos sozinhos. Cansei da solidão. Cansei do silêncio. Cansei de ser esquecida por quem nunca esqueci. Cansei de fazer o papel errado em minha própria peça. Peça escrita pelos meus próprios punhos marcados, feridos, sangrando. O sangue goteja, cai, vai longe, mancha; mas, no fim, ninguém percebe. Porque sou a Personagem Errada, afinal. A peça está pronta... estão ensaiando... eles vão longe... tento achar meu papel... E descubro que fiquei de fora. De novo.
     Então. Fujamos. Venha comigo. vamos para longe. Longe desse livro. Longe dessa gente. Longe desses mocinhos e dessas mocinhas românticas, tão boas, tão perfeitas. Tão utópicas e mentirosas.


Um comentário:

  1. Por um curto momento, estava no topo do mundo.
    Em cima de um galho, mais precisamente.
    E lá, nesse galho, observei a minha gaiola, e uma luz muito forte...
    Continuei voando em direção a essa luz.
    Continuei voando.
    Em alguns momentos, nem mesmo a luz conseguia me esquentar.
    Os outros que estavam do meu lado, falavam com os olhos: "você é louco, nunca vai conseguir"
    Enquanto o tempo passava, eu já havia esquecido meu objetivo, minha razão, minha consciência...
    Apenas seguia a luz, ignorando tudo.
    Ignorando as outras pessoas, que apenas serviam para mostrar a insegurança do meu coração; ignorando a gaiola, que apenas servia para me prender e estabelecer o meu limite.
    Ignorando a vida, ignorando a morte, as palavras, os pensamentos, os significados, a realidade, a ilusão...
    Apenas seguindo a luz.
    Certo dia, alcancei a luz.
    Ignorei meu corpo, minha alma, meu destino...
    Mas minha existência continua aqui, repetindo o mesmo ciclo, até que a luz me ignore e desapareça.

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